O velho e o novo rádio, o passado (o presente) e o futuro

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Num dos grupos de discussão sobre rádio no facebook do qual faço parte, um jovem radialista disse detestar o saudosismo barato, que segundo ele se baseia em épocas remotas, normalmente de quando éramos crianças, para erigir um modelo de programação radiofônica para todo o sempre, como um cânon, sem que se levem em consideração as transformações da sociedade contemporânea e sua influência nos meios de comunicação tradicionais.

A postagem recebeu dezenas comentários de profissionais de gerações diferentes, e as opiniões ora tendiam para a concordância, ora tentavam mostrar-lhe que, no passado, tinha-se mais qualidade, e que as mudanças contribuíram para enfraquecer o rádio carioca (o grupo é formado majoritariamente por admiradores do rádio do Rio de Janeiro).

Criou-se um embate entre “passadistas” e “futuristas”: estes defendendo a necessidade de mudança como algo natural e relativizando a visão romântica e idílica do passado como época em que tudo era perfeito e sem erros; e aqueles denunciando a queda de qualidade do rádio atual como consequência da ruptura com o modelo vitorioso e consagrado do passado.

Quero retomar este debate aqui não para fechar questão sobre qual das duas posições é correta. Isso seria presunçoso e autoritário: estabeleceria uma verdade absoluta acerca de algo (modelo de comunicação radiofônica) que é relativo posto que dependente de contextos históricos, sociais, culturais e artísticos diversos.  Pretendo, isto sim, fazer algumas reflexões à guisa de tornar a discussão mais complexa, libertando-a da condição de refém de uma lógica binária reducionista e empobrecedora (passado e futuro, novo e velho, moderno e tradicional).

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Tendemos a ver o novo como algo intrinsecamente bom, numa operação mental que substitui o juízo de fato pelo juízo de valor e reveste o antigo, o velho, de carga pejorativa. Assim, entronizamos no discurso a concepção de que tudo que é novo é bom porque é novo, e é isso que justifica aquela velha frase dita tanto por medíocres quanto por gênios incompreendidos quando veem suas inovações criticadas: “O novo sempre assusta!” É verdade – mas o ato de assustar, por si só, não lhe confere indicador de qualidade.

A associação de mudança com progresso acabou por tornar o novo um indicador de qualidade de vida, de inserção na modernidade e no patamar mais avançado da civilização. O mundo digital, que provoca constantes mudanças de paradigma, aguçou a sacralização da novidade. Adotar o novo tornou-se, então, um padrão de comportamento digno de admiração. Por oposição, tudo que é antigo é ruim ou inapropriado porque é antigo. Ser do passado, embora até possa merecer reconhecimento pelo que representou, já não nos serve de parâmetro.

As consequências dessa valoração levam à diminuição da capacidade de consciência crítica, à diluição de critérios balizadores, ao desinteresse, quando não desprezo, pelo processo histórico e ao abandono dos clássicos. O novo, encarado sempre como momento de ruptura, estabelece os parâmetros valorativos, sem que nos detenhamos, de fato, numa análise detalhada de forma e de conteúdo. E sem que possamos perceber a relação dialética entre passado e futuro, suas continuidades e descontinuidades. Pode parecer óbvio, mas nem sempre a obviedade solta aos olhos: o presente e o futuro só existem porque existe o passado, e é nele que está o germe das transformações.

Ser novo não significa ser bom, assim como ser antigo não significa ser ruim ou ultrapassado. Há coisas novas que são boas, há coisas novas que são ruins; há coisas antigas que são e continuam sendo boas, há coisas antigas que são ruins, há coisas antigas que foram boas e hoje estão ultrapassadas.

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O novo é uma construção histórica que demanda capacidade criativa dos sujeitos para perceber que há espaço, domínio de técnica específica e demanda para a irrupção, no presente, de algo desconhecido. É obra humana – e, como tal, sujeito ao erro. Quando falamos, então, de criações artísticas para as massas – como é o caso do assunto em questão -, sua enorme carga de subjetividade pode gerar dissociação entre criadores e consumidores, ainda que, quando se trata de veículos de comunicação com razoável nível de organização e credibilidade, haja preocupação com pesquisas qualitativas.

Se uma emissora de rádio decide mudar seu formato tradicional, é porque seus diretores, escorados ou não em pesquisas, mas certamente preocupados com as transformações por que passa a sociedade, considera que esse formato já não reflete o papel que o meio deve exercer. Em rádio comercial, há outras duas variáveis de muito peso na opção pela mudança: a audiência e o faturamento publicitário.

Por mais que haja a constatação de que um novo formato é necessário, este sempre será uma criação de homens do presente. E, como tal, pode ser boa ou ruim, pode agradar aos ouvintes ou fazê-los mudar de emissora, pode conquistar novo público ou continuar mantendo-o distante.

O ouvinte não é obrigado a aceitar o novo que lhe oferecem: ele tem todo o direito de rejeitá-lo. Quando isso acontece, é porque a forma do novo não lhe pareceu convincente, não atendeu ao que ele sempre esperou da emissora que está acostumado a ouvir. E aí, é doloroso constatar, foi a emissora que não soube captar a vontade, o gosto de seus ouvintes, e transformá-lo em programas de seu interesse.

 Em épocas tão turvas para o mundo da comunicação, que caminha não se sabe para onde, não nos esqueçamos do velho – repito: velho, antigo, tradicional, costumeiro, rotineiro – bordão de Waldir Amaral: “Você, ouvinte, é a nossa meta. Pensando em você procuramos fazer o melhor.”

Atualíssimo.

por Bruno Filippo
FEVEREIRO 2013 


11 ideias sobre “O velho e o novo rádio, o passado (o presente) e o futuro

  1. Perfeito. Muito atual. Para mim não existem saudosistas e atualistas. Existe um radio que floresceu e um rádio falido. Mais do que nunca, vale essa verdadee – “Você, é produtor, vai produzir um programa. É locutor? Vai pro microfone. É operador, vai pra mesa de som. Não sabe fazer nada? Vai ser diretor.” O rádio AM morreu porque não conseguem implantar o radio digital. Entãol levam a programação pro FM. Produção hoje virou COLA DA INTERNET. Cad~e a criação? É mom não confundikr realismo com saudosismo.

  2. Como sempre, o grande mestre Bruno Filippo usa com sabedoria seu conhecimento, para expressar com elegância e precisão, apesar de a modéstia não o deixar admitir, a mais pura e cristalina verdade dos fatos!

  3. Grande Bruno Filippo! É sempre um prazer ler um texto seu. Fui seu aluno na Facha e na Estácio e sei que você é um professor marcante. Você tem maturidade e conhecimento suficientes para dirigir uma grande emissora de rádio.

  4. A convivência entre o passado e o presente no rádio brasileiro sempre existirá,a audiência precisa disso,faz bem,desde que bem usado,precisamos continuar é buscando o novo como se garimpa uma pedra preciosa afinal o talentoso não nasce todo dia.boa sorte.

  5. Bruno, mais um texto lúcido seu. Ao mostrar a necessidade de abandonarmos o dever de escolher entre “isso ou aquilo”, você aponta para uma urgência específica de refletir sobre o que se veicula atualmente na comunicação para grandes audiências (antes que alguém diga que o rádio não tem mais tanta audiência assim depois da televisão etc., esclareço que sou do teatro: qualquer público para nós já é grande!): pensar sério e profundamente a fim de superar o que o comentador César Hernandez bem apontou como “fase de trevas” guiada pelo Ibope. O Ibope, se parece bem servir à contabilidade do consumo, faz seus estragos quando se trata de coisas da arte e da literatura, em especial em veículos que atingem diariamente as pessoas. Em meu entender, a “ditadura da audiência” parece atualmente fornecer critérios centrais para escolhas dos conteúdos com que lidam os veículos ditos de comunicação, mas ela nada tem a ver com produção de informação ou de arte: isso me parece um tema grave e digno de atenção dos profissionais da área.

  6. Caro, Bruno. Parabéns por mais um elucidativo texto. Concordo com você: nem tudo que é novo, é bom; nem tudo que é velho, deixa saudades. Na minha modesta opinião, os meios de comunicação estão vivendo uma fase de trevas. Guiados pela famigerada “audiência”, brinda-nos com o que tem de pior na nossa sociedade, o lixo que dá “ibope”. Incrível constatar que produzimos muito mais quando vivíamos sob a vigia dos milicos. O Brasil era mais rico em suas idéias inovadoras e libertadoras. O disco de Jards Macalé e o seu “banquete dos mendigos” é uma prova desse período negro da nossa política, mas claro em idéias.

  7. Desculpe meu querido, mas pra que esse nariz de cera enorme? Linguagem rebuscada que dá a impressão de necessidade de auto afirmar a sua intelectualidade. Insegurança? Concordo com a frase do Waldir amaral. O ouvinte realmente é ou deveria ser a prioridade do rádio.

    • Descobri agora que há muitas “Zildas” que me criticam!
      Em outro artigo (“O rádio na televisão”), Zilda Figueiredo postou comentário me criticando. Agora foi a vez de Zilda de Almeida, com o mesmo estilo da outra.
      Poxa, que mal eu fiz às Zildas? rsrsrsrsrs…

  8. Parabens por mais essa brilhante coluna. Estou tomando conhecimento dela num dia muito trisrte para o rádio. Faz cinco anos que morreu HAROLDO DE ANDRADE, um dos maiores nomes da História do Rádio. Tem tudo a ver com a sua coluna.

  9. Olá! Não estou envolvido diretamente nessa área, porém, na universidade em que trabalho tem uma rádio educativa. Vou apresentar essa reflexão para eles, porque considero pertinentes alguns pontos levantadas e me fez pensar que coisas aqui escritas acontecem de forma semelhante na área em que atuo.

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